A Batida dos dias, de Carol Sakura, busca no onírico a possibilidade de refletir sobre o concreto. Seus personagens estão em becos sem saída, envoltos em alguma névoa de instabilidade e insegurança. Os relatos dão conta da opressão, velada – ou revelada – em relação sobretudo às mulheres. Com uma prosa pausada e reverencial, a escritora faz uma literatura centrípeta: olha para si para poder compreender o que está além dos seus próprios domínios.
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Que farei quando a noite chegar?
R$50,00“Ele quer saber: por onde está indo? Por que embarcou no trem? Um esforço de resposta torna mais exasperante sua inquietação. O desassossego do rasgo definitivo confirma as costelas contra o coração ou vice-versa. O coração cravejado de palha, de cabras em colinas do Nordeste, dos leitos secos de rios do Sul. Sou o lúmpen mais trivial de Eros, sou a seta quebrada de Eros e corrói-me a biologia do silêncio trançado em névoa e umidade, neste fim de tarde em que os índices fragmentados não suportam a luz dos postes. Se o mundo era amplo, agora tem a dimensão de areia entre um trilho e outro, onde ele se habita como alguém que não espera mais transição. O abismo cresceu como serpente a procurar a alimentação nos olhos do homem dentro do trem estacionado.”
