A Batida dos dias, de Carol Sakura, busca no onírico a possibilidade de refletir sobre o concreto. Seus personagens estão em becos sem saída, envoltos em alguma névoa de instabilidade e insegurança. Os relatos dão conta da opressão, velada – ou revelada – em relação sobretudo às mulheres. Com uma prosa pausada e reverencial, a escritora faz uma literatura centrípeta: olha para si para poder compreender o que está além dos seus próprios domínios.
Você também pode gostar...
Produtos relacionados
Que farei quando a noite chegar?
R$50,00“Ele quer saber: por onde está indo? Por que embarcou no trem? Um esforço de resposta torna mais exasperante sua inquietação. O desassossego do rasgo definitivo confirma as costelas contra o coração ou vice-versa. O coração cravejado de palha, de cabras em colinas do Nordeste, dos leitos secos de rios do Sul. Sou o lúmpen mais trivial de Eros, sou a seta quebrada de Eros e corrói-me a biologia do silêncio trançado em névoa e umidade, neste fim de tarde em que os índices fragmentados não suportam a luz dos postes. Se o mundo era amplo, agora tem a dimensão de areia entre um trilho e outro, onde ele se habita como alguém que não espera mais transição. O abismo cresceu como serpente a procurar a alimentação nos olhos do homem dentro do trem estacionado.”
Os óculos e outras réplicas
R$66,00“A leitura dos contos deste livro remete o leitor a um universo afetuoso, de observação e revelação do outro. São relações estabelecidas por réplicas e também por diálogos literários que nos trazem a formação das autoras, leitoras ávidas e amantes da arte. A partir do título, o leitor começa o jogo de tentar achar “os pares”. Na verdade, não importa. Os textos são autossuficientes em suas tramas, falam da vida, seja pela voz dos objetos que observam o ser, seja por meio de cartas, ou pela voz das protagonistas mulheres, às vezes confusas pelo passar do tempo, unidas em malhas de crochê. Uma religiosidade tênue, à capela, revela a espiritualidade do dia a dia, embora a violência doméstica também esteja presente, pois o olhar aguçado das autoras não deixa nada de fora: o amor, de todas as formas, e seus contrastes fazem parte da vida. Expressões como “sair do armário” reforçam a ambiguidade das narrativas, trazendo para cena o amor outrora condenado, que se liberta na fábula O armário e nos leva ao Ninho, aconchegante narrativa do objeto que participa como expectador afetuoso do dia humano. São diversos os pontos de vista que, assim como a diversidade de textos, enriquecem a leitura. (…)”
Catia Toledo
