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Que farei quando a noite chegar?

“Ele quer saber: por onde está indo? Por que embarcou no trem? Um esforço de resposta torna mais exasperante sua inquietação. O desassossego do rasgo definitivo confirma as costelas contra o coração ou vice-versa. O coração cravejado de palha, de cabras em colinas do Nordeste, dos leitos secos de rios do Sul. Sou o lúmpen mais trivial de Eros, sou a seta quebrada de Eros e corrói-me a biologia do silêncio trançado em névoa e umidade, neste fim de tarde em que os índices fragmentados não suportam a luz dos postes. Se o mundo era amplo, agora tem a dimensão de areia entre um trilho e outro, onde ele se habita como alguém que não espera mais transição. O abismo cresceu como serpente a procurar a alimentação nos olhos do homem dentro do trem estacionado.”

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A literatura é tão dramática quanto a vida. É soturna, sombria e densa, e por isso nos identificamos. É claro que se nos deparamos com um trabalho literário de verdade, que mexe com a psique humana, e os caminhos diversos da linguagem apontam, acusadores, suas garras insondáveis, somos atingidos em cheio.

O novo livro de Paulo Venturelli explora essas questões limítrofes bastante íntimas, tanto que já em seu título, o autor lança um questionamento: Que farei quando a noite chegar? É um pedido desesperado de socorro, pois o ser humano está sozinho, e isso perpassa todos os contos do livro como um leimotiv. Venturelli explora aquilo que não é visto, que não é notado, mas está à espreita, e o leitor sofre junto.

Já virou clichê falar sobre maturidade literária; afinal, o que é isso? Venturelli, nestas narrativas densas, nos brinda com um minucioso labirinto estilístico de alto nível em que o leitor, sempre atento, sem o fio de Ariadne, não sairá incólume.

Daniel Osiecki

Peso 0,180 kg
Dimensões 1 × 14 × 20 cm