Sérgio Lutav e seu livro Como invocar o Diabo e conjurar espíritos baixos reflete a ideia do não-lugar: o ser para não estar. Sua narrativa é um tratado sobre o deslocamento e o sentir-se deslocado, sobre o não pertencer. Lutav faz uma simbiose entre os olhares fantásticos de Kafka e de Cortázar, um amálgama que, à primeira vista, pode soar desconexo, mas que, em realidade – e lá se vão os conceitos de real! –, tem muito a dizer sobre o autor e também sobre o leitor. Como invocar o Diabo e conjurar espíritos baixos é uma metáfora poderosa sobre o estrangeiro – aquele que, como cantavam os Titãs, não é de lugar nenhum.
Que farei quando a noite chegar?
R$50,00“Ele quer saber: por onde está indo? Por que embarcou no trem? Um esforço de resposta torna mais exasperante sua inquietação. O desassossego do rasgo definitivo confirma as costelas contra o coração ou vice-versa. O coração cravejado de palha, de cabras em colinas do Nordeste, dos leitos secos de rios do Sul. Sou o lúmpen mais trivial de Eros, sou a seta quebrada de Eros e corrói-me a biologia do silêncio trançado em névoa e umidade, neste fim de tarde em que os índices fragmentados não suportam a luz dos postes. Se o mundo era amplo, agora tem a dimensão de areia entre um trilho e outro, onde ele se habita como alguém que não espera mais transição. O abismo cresceu como serpente a procurar a alimentação nos olhos do homem dentro do trem estacionado.”
