Nos contos desse livro, André Knewitz nos coloca frente ao retrato de uma metrópole repleta de sujeitos incomuns em situações adversas. A obra tem por ideia central a representação de personagens sem voz, reificados, num contexto estranho e hostil. As situações, os locais e os fatos se repetem quase que à exaustão. É como se vida fosse um eterno loop, sem escapatória. Zumbido é um livro corrosivo, irônico, de invenção e de efeitos técnicos muito bem orquestrados por esse autor que já é uma voz que não se pode ignorar.
Que farei quando a noite chegar?
R$50,00“Ele quer saber: por onde está indo? Por que embarcou no trem? Um esforço de resposta torna mais exasperante sua inquietação. O desassossego do rasgo definitivo confirma as costelas contra o coração ou vice-versa. O coração cravejado de palha, de cabras em colinas do Nordeste, dos leitos secos de rios do Sul. Sou o lúmpen mais trivial de Eros, sou a seta quebrada de Eros e corrói-me a biologia do silêncio trançado em névoa e umidade, neste fim de tarde em que os índices fragmentados não suportam a luz dos postes. Se o mundo era amplo, agora tem a dimensão de areia entre um trilho e outro, onde ele se habita como alguém que não espera mais transição. O abismo cresceu como serpente a procurar a alimentação nos olhos do homem dentro do trem estacionado.”
